Entrevista com Sérgio Campos,
Presidente da Edisoft
Na problemática da Homeland Security, o Espaço desempenha um papel fundamental. É o “papel de embrulho”, ou seja, o que permite organizar, ligar e embrulhar todas as outras tecnologias e dispositivos, nas palavras do presidente da empresa portuguesa pioneira no espaço, a Edisoft.
Sérgio Campos, explica que toda a informação passa hoje pelo Espaço e que este deve servir para enquadrar as estratégias de segurança e as optimizar.
E deixa um alerta, Portugal já perdeu várias batalhas e vai perder a do Espaço se não houver a inteligência económica e estratégica para perceber a sua importância.
Qual pode ser o papel do Espaço nesta problemática da Homeland Security?
Papel de embrulho… e eu explico. Papel de embrulho porque permite, de facto, embrulhar num pacote muito mais alargado todo o resto da informação, porque não nos podemos esquecer que é em primeiro lugar através do Espaço que circula a informação, através dos satélites de comunicação. E aí começa o Espaço a ter um papel relevante.
Por outro lado, de embrulho porque em termos de segurança há vários tipos de satélites, com finalidades específicas, e alguns que podem de dia e de noite, com nuvens ou sem nuvens detectar seja o que for com uma resolução fabulosa. Enfim, não direi que tenhamos capacidade para ter acesso neste momento a satélites deste tipo em Portugal, mas também é verdade que se não existe essa capacidade é porque, provavelmente, as estruturas responsáveis por pensar estas questões não entendem que a ameaça seja suficientemente grande para justificar um investimento em imagens de este tipo.
O que é possível detectar e o que, num país como Portugal, poderia interessar detectar?
Estamos a falar de Homeland, mas esta também é água, também temos mar. Portanto, eu vejo uma dupla vertente, a vertente do mar territorial português, que por sua vez também é a fronteira da União Europeia e dos Estados Unidos.
Talvez fosse interessante - e não me parece que tal tenha sido equacionado com a devida profundidade, embora saiba que já tem havido conversações nesse sentido – que Portugal fizesse valer essa sua posição geoestratégica.
...em termos de Homeland Security, a segurança vale o que valer o seu elo mais fraco.
Uma posição que pode ser muito valiosa em termos de reforço da posição portuguesa em negociações internacionais…
É exactamente isso que quero dizer… Em termos de tráfego marítimo, por exemplo, a União Europeia ajudou a pagar um sistema de vigilância de costa, mas que não nos diz tudo. Desde logo tem um alcance limitado e como não faz parte de uma rede tem ou pode apresentar alguns “furos”.
Esse sistema apresenta, portanto, uma dupla limitação?
Sim. Seria, no entanto, interessante dispor desse sistema de vigilância de costa associado a sinais ou imagens de satélite. Há informação que o espaço pode fornecer. Todos esses sistemas de vigilância de costa confiam muito, não direi totalmente, nos chamados navios cooperativos. Ou seja, qualquer navio que passe aqui e cumpra as regras tem um transponder que emite informação captada pelo sistema. Mas o problema está nos que não são cooperativos, que não têm transponder ou que o desligam e que frequentemente e até em determinadas condições de tempo não são detectáveis por radar. Mas, através de satélites SAR – Synthetic Aperture Radar, com capacidade de captar imagens através das nuvens, é possível detectar haja o que houver, independentemente das condições atmosféricas.
Os satélites são mais fiáveis e muito mais precisos?
Exactamente. Há uma coisa clara em termos de Homeland Security, a segurança vale o que valer o seu elo mais fraco. Ou seja, se há um elo fraco no sistema podem-se gastar milhões nos outros elos de um modo inconsequente porque se há um elo fraco é esse que todos vão explorar.
Na maior parte dos casos não vale a pena gastar muito milhões, o que importa é tapar esse ele fraco. Aqui o Espaço pode ser, de facto, extremamente importante e na relação custo/beneficio tem uma vantagem fabulosa.
Os sistemas de vigilância de costa actualmente em montagem não chegam, tem de haver um sistema de sistemas. Assim, deve haver uma integração com o Espaço que permita a obtenção da informação necessária, e não mais do que essa, por parte dos dela precisam, em tempo real. Veja-se o caso da estação de rastreio de satélites da Agencia Espacial Europeia (ESA) que vai ser instalada pela Edisoft dos Açores. O que interessa é dar informação em tempo real (direct broadcasting). Se assim não fosse, mais valia fazer uma estação igual a tantas outras que já existem e que não têm informação em tempo real. Daí a extrema importância geoestratégica da localização de uma estação de satélites nos Açores. E mais, se nós não a fizermos alguém há de a fazer…
Isso é o problema de Portugal ter uma geografia muito rica e frequentemente não ter a inteligência para a saber e poder aproveitar…
Já não é só necessária inteligência geo-estratégica é também preciso que haja inteligência económica, porque um investimento deste tipo tem um importantíssimo impacto na economia.
Considera que seria importante que os países caminhassem para uma gradual autonomia em termos do Espaço, de modo a que a Homeland security ficasse nas mãos dos Portugueses?
A Homeland Security é impossível se não for desenvolvida num quadro de cooperação internacional, não vale a pena pensarmos nisso noutro quadro. No entanto, quando falamos de cooperação internacional não falamos só em comprar mas também em vender. Ou seja, temos de participar activamente no estabelecimento da rede necessária para uma Segurança comum. E não falo apenas da Europa, mas do mundo ocidental. Portanto, nós temos que ter a autonomia para a colocar ao serviço de um todo colectivo.
A corrupção é como as bruxas… E como disse alguém na Conferência do EuroDefense não é só fumo, é mesmo corrupção…
Ainda assim, não seria preferível, havendo a capacidade e disponibilidade, que Homeland Security seja feita prioritariamente com recurso ás capacidades nacionais e que esta deve ser uma aposta clara do Estado, sem esquecer as valências que possam vir de fora e as cooperações internacionais?
Não estava perceber que quisesse ir por aí, porque isso parece-me uma evidência de La Palice, porque, com certeza, se há aqui capacidade porque é que vamos buscar lá fora…?
Mas isso acontece frequentemente…
Todos os dias… acontece todos os dias… E mais, o que posso dizer, e aliais já o disse em público, é que há decisores que um dia, se viverem o suficiente para isso, vão sentir-se historicamente responsáveis pela cada vez maior dependência de Portugal do estrangeiro em domínios tão diversos com a Defesa, a Segurança e a Homeland Security. Se viverem o suficiente, têm a obrigação, cada um ao seu nível, de pôr a mão na consciência e dizer “eu sou responsável pelo estado de coisas a que isto chegou”. Lembro que na semana passada esteve cá Jack Welsh que disse: “Tenham vergonha! Vocês estão a afundar o país e não há maneira de travarem isto?”.
Acha que há aqui alguma corrupção?
A corrupção é como as bruxas… É das tais coisas que é extremamente difícil provar, mas que há fumo há… E como disse alguém na Conferência do EuroDefense não é só fumo, é mesmo corrupção…
Eu acho que José Sócrates poderia ser o Filipe Gonzáles português… Desde que esteja informado! Eu acho que tem condições paro o ser e que tem o desejo de o ser. Não acho que ele ficasse satisfeito se soubesse exactamente o que se passa no meio disto. Portanto, se estiver devidamente informado não tenho a menor dúvida de que o será.
Mas essa prática frequente de comprar fora o que pode ser feito do país e pode contribuir para o desenvolvimento económico e tecnológico do país não sucede, por exemplo, em Espanha…
É praticamente impossível qualquer outro país vender em Espanha se houver uma empresa espanhola que saiba fazer; primeiro ponto. Segundo, eles adoptaram uma prática que eu acho extremamente interessante e que também é muito decalcada da prática que existe nos EUA. Eles decidiram, evidentemente para este tipo de projectos em termos de equipamentos de Defesa e Segurança (ainda no tempo dos primeiros governos de Filipe González) um primeiro layer de main-contractors que eram, na altura, empresas ligadas ao Estado. Esses main-contractors estão obrigados a, ao receberem os contratos, os difundirem pela economia, estando também perfeitamente definidos um segundo e terceiro layers. Ou seja, os main-contractors são obrigados a subcontratar ao segundo layer e este ao terceiro de modo a difundir a tecnologia pelo país e por várias empresas, mas guardando a sua capacidade de liderança junto do governo.
Uma política de disseminação da tecnologia, portanto?
Mas isto não é nada de novo, porque, por exemplo, a ESA faz exactamente isto, tem main-contractors e tem um segundo e terceiro layers para disseminar a tecnologia pela Europa. Os Estados Unidos têm o
“Buy American Act” e o
“Small Business Act” e estes são modelos importantes para a economia. A Espanha, por exemplo, deu a volta por cima em 15, 20 anos.
...não há qualquer referência ao Espaço no programa do Governo.
Acha que o primeiro-ministro José Sócrates pode ser o Filipe Gonzáles que precisamos em Portugal?
Eu acho que poderia ser… Desde que esteja informado! Eu acho que tem condições paro o ser e que tem o desejo de o ser. Não acho que ele ficasse satisfeito se soubesse exactamente o que se passa no meio disto. Portanto, se estiver devidamente informado, não tenho a menor dúvida de que o será.
Voltamos ao espaço, à importância do espaço para as empresas portuguesas. Como é que vê num futuro próximo o desenvolvimento das empresas portuguesas e sua entrada na área do Espaço?
Portugal tem aderido timidamente à área do Espaço. Aderiu tarde à Agencia Espacial Europeia, tem aderido tarde a alguns dos programas, por exemplo ao programa GNES, de observação da Terra. Neste momento, não há empresas portuguesas na área do espaço com suficiente massa crítica para se imporem a nível internacional. E se é um facto que uma ou outra têm vindo a destacar-se, isto acontece pela sua pró-actividade e não pelo suporte recebido do Estado - quando falo de suporte não estou a falar de dinheiro, estou a falar do apoio politico a determinadas estratégias de desenvolvimento que nem sempre existe.
Portugal tem de perceber que o Espaço é uma área em que pode voltar a impor-se como se impôs há cinco séculos atrás nos oceanos; e pode fazê-lo porque, de facto, embora o Espaço precise de investimentos avultados, o principal investimento são os cérebros que existem cá do mesmo modo que noutros países.
Portanto, nós podemos estar a sério na área do espaço desde que tenhamos a noção da nossa dimensão, e façamos os investimentos certos e adequados com recurso à inteligência nacional.
Parece-me, contudo, que Portugal ainda não elegeu o Espaço como uma prioridade.
Os decisores políticos ainda não entenderam a importância do Espaço?
Eu penso que ainda não, porque senão já teríamos aderido há muito mais tempo ao GNES. Inclusive, penso que não há qualquer referência ao Espaço no programa do Governo. É uma pescadinha de rabo na boca, porque se por um lado há muito poucas empresas a actuar na área do Espaço e talvez por isso não lhes seja dada tanta importância, por outro lado, não há empresas com maior massa critica e em maior número pela falta de interesse do Estado.
E as universidades?
As universidades têm andado, sobretudo, preocupadas em fazer aeromodelismo. Em termos de Espaço, o Instituto Superior Técnico tem um curso muito interessante de Engenharia Aeroespacial onde aliás a Edisoft vai buscar muitos dos seus técnicos, mas não vejo mais…
Quer dizer que não só os políticos, como também as universidades ainda não perceberam a importância da Espaço?
As universidades não posso dizer que não perceberam…
Lembro que o Instituto Superior Técnico elegeu como muito importante o programa de lançadores de satélites da ESA que, no meu entender é um programa impossível de lançar em Portugal porque não há estruturas adequadas. Existe uma única estrutura empresarial com capacidade, mas que, por acaso, nem está para aí virada. Reconheço, no entanto, que é um programa, em termos académicos, extremamente aliciante, só que está muito longe da realidade, ou seja, não tem os pés bem assentes no chão.
Eu acho que os programas académicos têm a obrigação de estarem ligados à Economia e à Indústria.
Existem contactos entre a Indústria e as universidades?
Existe e até de um modo importante. Por exemplo, o curso de Engenharia Aeroespacial do Instituto frequentemente chama as empresas para perguntar se os alunos que de lá saem levam a formação adequada. Isto faz-se e é importante.
Só vamos fazer o Ocean Eye porque sabemos que os Americanos nos vão comprar, durante 7 anos, os nossos serviços de imagem.
A Edisoft tem protocolos com universidades?
Temos protocolos que não são só para a área do Espaço. Existe um, por exemplo, com a Universidade de Évora pelo facto de esta ter uma excelente equipa dedicada à observação da Terra. Trabalhamos também com a Universidade dos Açores nos domínios do Espaço, mas não muito mais… Com o Instituto Superior Técnico existem algumas realizações.
Não há uma grande apetência para estes domínios do Espaço. A Universidade está muito virada e gosta muito de investigação pura, para produzir papers. Mas esse é um problema que não é da Universidade, tem que ver com o estatuto da carreira de docente que os obriga a produzir papers. Essa é a obrigação dos docentes para progredirem na carreira. Há qualquer coisa que tem de ser mudada, provavelmente o estatuto…
Como vê a participação portuguesa no Galileo?
Há meia dúzia de empresas que estão no Galileo. Uma está desde o inicio, a Edisoft, e aliás já estava antes com o EGNO’s. Depois começaram a aparecer outros, mas sobretudo empresas da área da engenharia de softwares e, de facto, isso permitiu ter um grupo de empresas que juntas há constituem uma importante massa critica, isto se estivessem juntas. Ou seja, temos uma área de negocio interessante com alguma massa crítica, embora esteja dividida por algumas empresas.
Agora, já se percebeu o que as estruturas nacionais querem. A questão que colocam é a seguinte: Mas porque só há empresas de software? Porque não havemos de ir para outras áreas? Isto, há primeira vista, parece óbvio, mas é um sofisma e a ante-câmara do fiasco. Não nos podemos esquecer, por exemplo, que a participação industrial portuguesa no Galileo tem um determinado plafond.
Se ao invés do que tem sido feito até aqui (investir em empresas de software que juntas até ganharam alguma massa critica em termos internacionais) formos meter uma série de outras áreas o que vai acontecer é uma pulverização, vamos perder a massa critica que já se ganhou. E perderemos tudo…
Eu acho que Portugal, tendo recursos muito limitados e um plafond muito característico, ou define uma área para investir ou não vale a pena. É, uma vez mais, um problema de inteligência estratégica, mas também económica. Se não o fizer vamos ter uma miríade de pequenas empresas a fazer coisas pequeníssimas e… a não ganhar nada.
Temos tantos exemplos… A Irlanda apostou em força no software e é hoje uma potencia nessa área, porque elegeu um caminho, uma estratégia.
Parece-nos que não existe ainda nos decisores portugueses, quer na área da economia, quer sobretudo na área política, a noção de que o novo modelo económico internacional que está neste momento a surgir tem o Espaço como uma área fundamental e que quem não estiver no Espaço, quem não dominar as tecnologias do Espaço, ficará na periferia desse modelo económico internacional…
Portugal já perdeu várias batalhas e também poderá perder a do Espaço se não houver a inteligência económica e estratégica para perceber essa importância do Espaço que referiu.
Os diferentes organismos que proliferam pelo pais não entendem que a informação de que necessitam provavelmente é muito mais barata se obtida a partir do Espaço. Por exemplo, em casos de busca e salvamento é muito mais barato pedir imagens de satélite que mandar uma aeronave à procura sabe-se lá do quê e onde. O mesmo se aplica aos incêndios…
Isto é dramático… Veja-se o caso do Ocean Eye, que nós, a Edisoft, só vamos fazer porque à partida sabemos que os americanos nos vão comprar, durante sete anos, os nossos serviços de imagens. Em Portugal vamos ter de explicar às entidades nacionais a importância desta estação e o que podem fazer com os seus serviços, vamos ter de criar um mercado.
Talvez não fosse mau, as entidades nacionais, em particular o Governo, olhar para o percurso da Edisoft. Começou no Mar e rapidamente conquistou o Espaço, uma evolução que deveria ser também a do Pais, com uma história muito rica no mar.
Depois de olhar para o horizonte à procura de novos mundos, o país devia agora olhar para cima e encontrar o seu lugar no Espaço.